sábado, 25 de janeiro de 2020

DIZ-ME E EU ESQUECEREI…ENVOLVE-ME E EU APRENDEREI…




A euforia do Natal já passou… e agora? Dia de Reis, Inverno? NÃO… agora é tempo de Caracóis, gostamos tanto deles!!

Na frente das instalações do nosso Ninho dos Corujinhas há um terreno que costumamos frequentar com muita regularidade, é um espaço amplo, composto por árvores, flores, pauzinhos, pedras, terras… a Natureza no seu melhor e que nos permite usufruir de momentos únicos. Nas idas ao “terreno dos pauzinhos” observei em vários momentos o interesse das crianças por caracóis, gostam observar onde estão, brincam com as conchas como se fossem personagens de histórias que inventam, fazem contagens, têm diálogos entre si sobre os caracóis, e essas mesmas observações foram a base para o projeto “ Caracol, caracolinho” (pois várias vezes os ouvi chamar pelos caracóis usando esta mesma expressão).




No esquema do projeto procurei abranger várias áreas de desenvolvimento, de qualquer modo, não é uma planificação rígida, pelo contrário, há abertura para surgirem outras atividades, quer através propostas/interesses das crianças, através observações, através propostas famílias (…)



ESQUEMA PROJETO “ Caracol, caracolinho”


E tudo começa com a história “ Caracol, caracola”



O gosto pelos livros não é algo que se ensine, é estimulado através do contato com os mesmos, e quanto mais regulares forem esses contatos maior ligação se estabelece entre a criança e o livro. Assim, enquanto educadora acredito que a utilização de uma história para iniciar um projeto é uma estratégia muito enriquecedora, é um fio condutor que marca o início do projeto mas que se vai mantendo ao longo do mesmo possibilitando uma interligação entre todas as áreas de desenvolvimento que se envolvem entre si e não ocorrem isoladamente.

Para a Hora do Conto não utilizei o livro em formato original, mas optei por fazer um livro com as imagens em A3 que colei em cartão e apliquei alguns estímulos sensoriais.




Partindo da história, que é sempre a base do projeto, realizamos várias atividades:

- À Procura do Caracol- idas ao terreno apanhar caracóis


- Canção- com utilização caixinha de instrumentos

- Exploração Imagens reais comparando com caracóis que trouxemos do exterior


- Pintura de imagem caracol/ aplicação pedaços Eva- cada criança escolhe livremente a cor que quer utilizar


. Caracóis de plasticina ( estica, estica, estica… enrola, enrola, enrola)


- Eu sou um caracol- brincar aos caracóis , faz de conta…



As famílias, os nossos parceiros

Antes de iniciarmos o projeto pedimos a colaboração das famílias para que nos enviassem material relacionado com o tem, e no dia que demos inicio ao projeto tivemos uma agradável surpresa, o carteiro veio entregar uma encomenda e quando abrimos a caixa descobrimos 2 livros sobre caracóis, foram enviados pela mãe da nossa Alexandra. Ficamos tão Felizes!!! Uma contribuição que veio enriquecer tanto o nosso projeto!






Recebemos ainda um caracol sensorial feito pela mãe da nossa Maria Rita e uma caixa de conchas de caracóis que a pequenota apanhou com a prima na horta do pai Luís, e que fez questão de contar aos amigos essa mesma experiência.



Partilhando com os bebés

O projeto que começou a partir do interesse das crianças da sala 2 anos estendeu-se à sala do berçário. Num 1ºmomento levamos o nosso livro sensorial “ Caracol, Caracola” para mostrar aos bebecas… e resultou em momentos de PARTILHA tão bons para todos, os bebes com o seu olhar curioso para o que se estava a passar, o grupo 2 anos numa primeira fase meio envergonhados mas depois a querer mostrar, a querer envolver os bebes… num 2ºmomento partilhamos a canção utilizando a caixinha de instrumentos musicais… 




Momentos de Partilha são momentos muito especiais para todos… para os bebés pois contatam com crianças maiores, desperta-lhes a curiosidade, estabelecem-se ligações afectivas… para as crianças grupo 2 anos que se sentem orgulhosas em mostrar as “suas coisas”, há uma sensibilidade ao lidar com os bebes… vivências simples e únicas para todos…



CARACOL, CARACOLINHO…

E é pela OBSERVAÇÃO que tudo começa… vê-los em contato com a Natureza, nas suas explorações, nas suas descobertas… observar os seus interesses… poderíamos seguir o caminho do “mais do mesmo”, mas não seria igual… gostam de Caracóis? SIM… então vamos seguir o vosso caminho, posso ir ao vosso lado?

A OBSERVAÇÃO… que importante é ter um olhar desperto pois cada criança, o grupo vai-me manifestar aquilo que gosta através de brincadeiras, de conversas, de explorações… mas não é fácil! Temos dúvidas, temos receios… mas faz parte… por mais leituras de fazemos, por formações que vamos tendo, por partilhas… é apenas na concretização que percebemos que caminho querem as crianças fazer, e temos de ter a capacidade de continuar caso haja interesse ou de recuar caso não haja interesse… e a isto se chama CRESCER!

Não há receitas, cada criança é uma criança, cada grupo é um grupo, cada contexto é um contexto… mas há o nosso percurso enquanto profissionais de educação, para mim o que me faz sentido é partir daquilo que observo, planificar, refletir, reformular, refletir… e sim tenho dúvidas, e sim recuo quando tenho de recuar, e sim avanço por outro caminho se assim fizer mais sentido para as crianças, porque o mais importante é que se sintam envolvidas, que façam descobertas, que partilham, que ocorram vivências únicas e com significado… e a isso se chama CRESCER FELIZ!





quarta-feira, 13 de novembro de 2019

AS EMOÇÕES NÃO SE ENSINAM, VIVEM-SE!




“Gosto de ti
Desde aqui até à Lua
Gosto de Ti
Desde a Lua até aqui
Gosto de ti
SIMPLESMENTE porque Gosto
E é tão bom viver assim!”
( André Sardet)



2019, séc. XXI, uma era marcada pela tecnologia que invadiu toda a nossa vida…  tablets, pc´s, iphone´s …  teclar ao invés de se conversar, teclar ao invés de se beijar, teclar ao invés de se mimar… esperem já nem é teclar, é “passar o dedo” por écrans , e sim já observei, em vários momentos, crianças bem pequenas a reproduzir esse gesto… o que andamos nós geração adulta a passar às nossas crianças?

Nós que temos nas nossas memórias tantos afetos …  o abraço dos nossos amigos, o colo da avó quando me contava uma história da sua memória, o beijo da mãe para tratar a ferida, a mão do pai que nos dava confiança para tudo enfrentar, o correr na rua, o sentir a chuva na cara, o som do “amola tesouras”… tantas memórias de afetos, de vivências, de Amor…





URGENTE… EMOÇÕES PRECISAM-SE!

E sim nos dias de hoje tudo é diferente e não devemos (nem conseguimos) ser radicais, mas podemos trazer mais vivências emocionais para este mundo tão racional… e pequenos passos podem fazer a diferença, e sim, nós (educadores, pais, amigos…) somos os modelos para as nossas crianças… mais que procurar ensinar EMOÇÕES, devemos VIVER EMOÇOES!



BOM DIA, BOA TARDE… Quando saio com um grupo para o exterior se passamos por alguém o que fazemos? Cumprimentamos… se eu cumprimento, e estimulo as crianças a fazerem-no acaba por se tornar em algo rotineiro para elas…  isto é viver emoções: cumprimento-te, olho para ti, vejo-te, sorrio… e em vários momentos em que estas situações se verificaram pude observar o “brilho “ no olhar de quem recebeu este cumprimento… mas não deveria fazer parte do relacionamento entre pessoas? … não se ensina a cumprimentar, cumprimentamo-nos!




GOSTO DE TI… é para usar e abusar, pelo menos não conheço nenhuma lei que o proíba, e deve fazer parte do nosso vocabulário quotidiano com as crianças, não devem ter qualquer inibição em dizê-lo, em senti-lo, e sim devemos estimula-las, entre si, a dizerem o que sentem uns pelos outros… e há momentos em que estão zangadas e não gostam tanto, e não tem mal nenhum, importante é sentir, e sentir em liberdade, sentir com verdade, e não ter vergonha de dizer GOSTO DE TI… não se ensina a dizer Gosto de TI, diz-se!




BEIJINHOS, BEIJOCAS, BEIJO COM BARULHO… o beijo deve surgir da vontade de cada um, também não sou apologista do beijar “obrigatório” pois isso tira a essência do que deve significar o beijar que deve ser uma manifestação de carinho, e não existe carinho por obrigação… numa fase inicial é perfeitamente normal a criança não nos querer beijar… quem és tu que chegaste agora à minha vida para estares a querer beijos meus? Tens de os merecer! E vai acontecer de um modo natural quando a criança sentir confiança para que tal aconteça, e quando acontece é muito especial porque é dado com sinceridade. Beijar é uma manifestação de afeto e não tem mal nenhuma manifestar o que estamos a sentir… há um jogo, o jogo das “beijocas” que gosto de fazer com o meu grupo, em que o beijo vai passando de bochecha em bochecha até voltar ao ponto de partida… a primeira vez que o fizemos parecia que nunca tinham dado um beijo, e na verdade, estamos juntos há quase dois anos e eu recebo muitas beijocas mas entre as crianças era algo ainda pouco estimulado, daí uma certa desconfiança, uns olhares de espanto… mas tal situação foi ultrapassada e já há o beijar de modo natural. E também houve a fase dos beijos silenciosos que passaram a ter som, o som bonito de uma beijoca bem repenicada na bochecha, o que treinamos a tentar imitar o chilrear dos passarinhos, e nada melhor do que a canção dos beijos (som) para treinar “ as melhores beijocas do mundo”!... não se ensina a beijar, beijamos!




ABRACINHOS, COLINHO … o abraço e o colo quase que se complementam, pois o abraço de uma criança é do melhor que há, é de corpo inteiro! Como uns bracinhos tão curtos (ainda) nos conseguem envolver como se nos tivessem a dar colo? Na minha modesta opinião isso acontece porque é um abraço completo de tudo, um abraço colo, às vezes um abraço cavalitas… mas seja de que modo for quando abraçamos estamos a acolher o outro em nós… um abraço, o espontâneo, o verdadeiro é aquele que parece que fala e nos diz” Estou aqui para ti!”… não se ensina a abraçar, abraçamos!






AS EMOÇOES ESTÃO À SOLTA!

E são tantos os recursos que podemos utilizar para estimular o Viver as Emoções:

- Canções

- histórias

- Imagens Reais

- Observações no Meio real

- jogos

- Observações no espelho

- Caixa do faz de conta

(…)



O limite é a Imaginação, e para a Imaginação não há limites!



Mais do que ensinar, nós, referências para as nossas crianças, devemos VIVER, com elas, momentos de Emoções, de Sentir… e não tem mal nenhum em Sentir e em fazer parte dos nossos dias: Gosto de ti, Amor, Abraçar, Colinho, Mimo, Beijocas… e que façam parte do seu percurso de Crescimento para que se tornem adultos EMOCIONALMENTE saudáveis!



“ A sorte da maior parte das crianças é terem sido bem abraçadas muitas vezes. Com base nisso ganham confiança num mundo amigável, mas, ainda mais importante, por terem sido abraçadas com AMOR são capazes de progredir rapidamente no seu crescimento emocional” (D.W. Winnicott.1987.pág62)



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

De pés e cabeça nas nuvens! Quando a Magia acontece… é simplesmente… ESPECIAL




E chegamos ao fim de mais um projeto, o Projeto “Sobe, sobe Balão sobe” e é tempo de reflexão, de pensar no que tínhamos planificado, no que se concretizou, no que não se concretizou, no que surgiu além do planeado, na importância para cada criança, para cada grupo, para a instituição. É tempo de reflexão, um momento tão importante para o nosso crescimento enquanto profissionais e para o trabalho que desenvolvemos nas nossas salas, pensar no que fizemos, no que correu bem, no que correu menos bem, no que podemos melhorar… REFLETIR…



O Projeto “ Sobe, sobe Balão sobe”



No nosso Ninho dos Corujinhas acreditamos que é importante usufruir do que o Meio tem para nos oferecer, e na nossa vila de Coruche ocorreu o Evento Festival de Balonismo como já acontece há alguns anos. Além disso, na nossa zona,  é usual observar balões a flutuar no céu pois há uma empresa (Windpassenger) sediada em Coruche que promove esse tipo de experiências, e temos tido o privilégio de testemunhar esses momentos com as nossas crianças, e as reacções são sempre marcadas por uma alegria muito espontânea, um brilho no olhar de encantamento. E por isso mesmo, porque acreditamos que os projetos devem nascer do interesse/gosto das crianças, fazia-nos todo o sentido a realização deste projeto .



E tudo começa com uma canção…


Porque a música é um recurso que estimula, que motiva, que põem o corpo e consequentemente a alma a mexer, consideramos que seria o ponto de partida… e escolhemos “ Sobe, sobe, Balão sobe” de Manuela Bravo… um risco! Uma sonoridade diferente, uma música de outros tempos… mas a intenção foi mesmo essa, uma música que não fizesse parte do repertório infantil, mas que fosse apelativa ao ouvido, o que acontece sobretudo na parte do refrão. A canção base foi a original, no entanto, lançamos um desafio a alguns artistas para que nos enviassem as “suas “ versões, recebemos 5 partilhas ( Ana Roque; Mária Silva; Charanga os Batatas; Diana Silva; Laura Macedo e Coro Assecor), todas diferentes, e todas muito especiais, umas destacando mais voz, outra destacando mais parte instrumental, umas num estilo, outras noutro estilo, uma das apresentações foi ao vivo… e este desafio resultou em partilhas que enriqueceram em muito o projeto, e a música foi, de um modo natural, interiorizada pelas crianças, um aspeto curioso, no primeiro dia de Festival, ao observarem os balões as crianças começaram a cantar a música para ajudar os balões a voar...








Era uma vez…


Um outro recurso que utilizamos foi uma história, “ O Maior Balão do Mundo” uma adaptação da história o Nabo Gigante. O elemento principal foi um Balão Gigante, uma vez que durante o festival também foi apresentado o Maior Balão do Mundo, uma história simples em que integramos alguns animais incidindo na contagem dos mesmos, nos sons, também incluímos a parte da interajuda para se conseguir pôr o balão a voar… a história aparece com o objetivo de estimular a capacidade de IMAGINAR, de nos levar a voar pelo mundo do faz de conta. A história era composta por uma caixa mágica com vários elementos, a imagem real do Balão, imagens reais dos animais , o chapéu do sr Manel que o narrador utilizou durante a contagem da mesma, a nuvem fofa, lenços de cor (cor que o balão espalhou pelo céu). A história tinha uma certa sonoridade repetitiva…  1,2,3 e sopraram, sopraram… e foi muito facilmente interiorizada pelas crianças e começaram elas próprias a reproduzi-la.

Através da história todos fizemos viagens no Balão Gigante, brincamos nós próprios de balões a voar, o soprar para ajudar o Balão a subir ao céu, os sons dos animais… as histórias têm este poder de nos levar pelo mundo da Imaginação e por isso acreditamos que é um recurso muito importante. 





Exposição Balões Mágicos







O Balão Maior do Mundo é cheio de cor, e por isso mesmo queríamos brincar com cores, mexer em cor, escolher… e cada criança decorou um balão utilizando vários materiais de expressão plástica. Além disso, em conjunto, com todas as salas decoramos um Balão Gigante… mas achamos que poderíamos envolver mais parceiros, e lançamos um desafio ao CRIC (Centro de reabilitação e integração de Coruche), ao Centro de Dia de Coruche, ao Centro de Geriatria de Santo Antonino, à Academia de estudo CAD Coruche ( ATL), à associal Fajarda (centro de dia)… e todos procederam à decoração de um molde de balão e registo “ O que observo do Balão Mágico?”, trabalhos estes que integraram uma exposição que fizemos na entrada da nossa instituição, e que foi visitada por alguns dos parceiros, e foi bastante explorada pelas nossas crianças, e havia tanto para descobrir (cores, texturas…).

Com esta exposição os balões tornaram-se realmente mágicos, não eram meros elementos decorativos de vidros, eram recursos que permitiram muitas explorações. Além disso o envolvimento dos parceiros veio em muito enriquecer o projeto, e quando as colegas das instituições iam-nos dizendo como estava decorrer, o envolvimento dos seus utentes, o orgulho com que nos entregaram os balões comprovou isso mesmo… e a Partilha não se ensina, vive-se!  



O Desafio Musical e Desafio Balões Mágicos não estavam inicialmente planeados, mas acreditamos que as planificações devem ser abertas ao que poderá surgir, e podemos não realizar algo que tínhamos planeado, e fazer uma outra atividade, o importante é estarmos atentos ao que as crianças nos transmitem, ao modo como se envolvem no projeto, ao que podemos acrescentar ou retirar em função do significado que o projeto tem para elas, mais importante que cumprir rigidamente planificações, é viver na realidade os projetos… estes dois Desafios permitiram que o projeto deixasse de ser do Ninho dos Corujinhas e passasse a ser de todos os parceiros envolvidos… e que bom foi receber alguns a visitar a Exposição, e aos que não foi possível fomos nós visitar para partilhar a história, a canção, o projeto que afinal se tornou de todos nós…









E a Magia acontece…


E estar ao lado das nossas crianças a vê-las a observar os balões a Flutuar no céu… é um privilégio, as manifestações de alegria, os sorrisos, o apontar, o soprar, o cantarem a “nossa” canção… o começarmos por um projeto no Ninho dos Corujinhas e envolver vários parceiros, haver momentos de encontro entre gerações, haver partilha... é a Magia acontecer de um modo tão espontâneo… a isto se chama CRESCER FELIZ! 



domingo, 27 de outubro de 2019

QUERO TER LIBERDADE… para simplesmente BRINCAR!



Sábado tarde, uma tarde outonal com aquele solinho baixo e uma brisa amena.  O que apetece? Vamos pegar nos miúdos e sair de casa, vamos sem rumo… e fomos! Sem planos traçados, apenas passear e aproveitar para estarmos juntos… uma REGRA: nada Centros Comerciais, seria um atentado a uma excelente tarde de Outono… e fomos, sem rumo, dar a Alcochete, apetecia-nos ver água e como as praias ainda ficam distantes, foi uma alternativa que não obrigou a deslocações demoradas em que passamos mais tempo de carro do que propriamente a usufruir do Meio, e ainda que o cenário de fundo fosse a Cidade de Lisboa, há a Reserva Natural do Estuário do Tejo que nos permite observações muito interessantes… um passeio pela zona ribeirinha de Alcochete…  a imensidão do Tejo, as gaivotas, os barquinhos, uma marginal bem agradável para um passeio sem rumo… os miúdos a chutar bola, os pais a caminhar e na converseta … 





O parque infantil

Junto zona ribeirinha há um parque infantil, curiosamente com elementos com muita ligação a Alcochete e à tradição tauromática, um escorrega em forma de Touro, os baloiços com  bandarilheiros… os miúdos quiseram ir brincar para o parque, e lá fomos nós, ainda que a caminhada sem rumo estivesse a ser tão boa…


O parque, a obedecer ao mais do mesmo de todos os parques atuais, borracha e grades… uma “jaula emborrachada”, em redor zona de bancos (supostamente para adultos) … sentei-me e observei (mesmo que queira evitar faz parte de mim)… observei como mãe, como cidadã, como profissional de educação… OBSERVEI E REFLETI…

Eu e o pai ficamos na zona exterior ao parque, nos “bancos de adultos”, os miúdos foram experimentar o parque… no interior do parque já estava algum “engarrafamento de adultos” , um casal com uma miúda com seus 7 anos que supervisionavam milimetricamente todos os seus passos de braços levantados não fosse ela cair, uma senhora que fazia também o acompanhamento de uma menina de cerca 5 anos, um casal e senhora mais velha que se dividiram para acompanhar um menino com cerca 3 anos, uma menina que brincava sem supervisão “sombra” (avó estava telefone num dos bancos)com outro menino (pais estavam no exterior)… as crianças com supervisão “sombra” não estavam a explorar o espaço livremente, nem podiam! E se uma dessas crianças ficasse simplesmente sentada por uns segundos no cimo do escorrega (de onde se pode observar o topo do Mundo) ou levava com os olhares “fulminantes” da criança que atrás de si quer escorregar (obviamente de mão dada com o adulto), ou levava um ralhete da sua sombra que também já olhava de “lado” para as sombras da outra criança…

E a duas crianças que brincavam mais livremente? A brincadeira era apanhar todos os paus e pauzinhos, rebolarem-se no chão… mas lá vinha grito de aviso pai do menino “ Não te quero deitado no chão”… mas estes eram rebeldes e apesar avisos, sobretudo pais do menino pois a avó da menina estava na “dela”, iam contornando as regras impostas no parque “ emborrachado” encontrando elementos que a Natureza tinha mandado para lá, uns pauzinhos, umas folhas… que alegria explorar aqueles tesourinhos… e quando o menino diz para a menina “ Já temos tudo, falta a areia”… ela responde “ O QUE É AREIA??”… Fiquei verdadeiramente assustada com aquela resposta... eu que fui da geração de bolinhos de areia, eu que chegava casa com sapatos com quilos de areia… e pensei para mim “ EU FUI DA GERAÇÃO QUE BRINQUEI LIVREMENTE”… que mundo é este? Temos toda a LIBERDADE mas não deixamos as gerações mais novas serem livres… é verdadeiramente ASSUSTADOR!

Tal como refere o professor Carlos Neto (recomendo leitura de todo o texto)

“ Estamos a criar crianças totós de uma imaturidade inacreditável”

 ( Carlos Neto: https://observador.pt/especiais/estamos-a-criar-criancas-totos-de-uma-imaturidade-inacreditavel/)





Pensamentos de mãe…

Tenho 2 filhos, um de 9 anos e um de 4 anos, e tal como todos os pais desejo o melhor para eles, desejo que sejam crianças Felizes… mas sim também eu por várias vezes tenho desempenhado o papel de “sombra”, mas podemos nós evitar que caiam? Que esfolem joelhos? NÃO… faz parte da vida, e tentar evitar estas situações estamos a criar crianças pouco autónomas, com receio de tudo e de nada… estamos a impedir que sejam LIVRES! E há soluções? Na minha opinião passa por nós termos capacidade de observar no que se passa à nossa volta e conseguirmos refletir sobre o nosso papel como pais… foram os nossos pais maus pais por nos permitirem “esfolar os joelhos”? Como mãe… assumo que não é fácil, não há receitas…



Pensamentos de educadora…

“ O que é Areia?”… que assustador… mas é real… trabalhei com vários grupos que perante areia a atitude era de nojo perante aquela textura “estranha”… e essa foi uma das razões que quando avancei com Projeto Ninho dos Corujinhas tínhamos de ter uma zona de Areia, a nossa “praia”… além disso frente ao nosso espaço há um campo que é um verdadeiro tesouro, tem árvores, areia, pedras, paus e permite vivências únicas aos pequenotes, de contato com a Natureza, por isso o ir ao terreno é algo que faz parte da nossa rotina diária e observá-los nesse contexto é tão enriquecedor, o correr naturalmente , caem e levantam-se, desenhar com paus, brincar com caracóis como se de bonecos se tratassem… o simplesmente BRINCAR…


“Brincar não é só jogar com brinquedos, brincar é o corpo estar em confronto com a natureza, em confronto com o risco e com o imprevisível, com a aventura.    (Carlos Neto)




Que as novas gerações tenham a possibilidade de simplesmente BRINCAR livremente e criar as suas próprias memórias, que nós, adultos “sombras” tenhamos a capacidade de refletir sobre os nossos papéis, sobre as nossas atitudes e as consequências no percurso de crescimento das nossas crianças… finalizo com uma dúvida: E que pais serão estas crianças dos dias de hoje?